terça-feira, abril 17, 2018

Dos ciclos e da Lua

Havia os ciclos das estações e as noites de luas.
A casa que habitávamos tinha 3 lados, um deles, o do meu quarto, era virado para o nascer do Sol e o nascer da Lua. O mar era ao fundo do caminho dos pinhais. Nesse tempo e lugar, levantava-me muito cedo, pelas 6h da manhã, com orvalho ou chuva, tempo bom ou mau, eram 2h horas de caminho.
Passados 10 anos às 7h da manhã já "se estava" a polir metais, esfregar átrios, a distribuir lençóis e toalhas.
Aconteceu-me o mesmo 20 anos mais tarde, trabalhos de periferia das cidades. Não posso dizer que apreciasse fazê-lo, sempre fui uma alma da noite, mais pensando e sonhando dentro dela que durante o dia pleno.
Quando os deveres, as inquietações, as saudades, pareceram ritmos de coração descontrolado e que era forçoso disciplinar na vida corrente e aparente. O fim da  noite dava-me sossego.













A propósito do PPP da semana passada, lembrei as minhas madrugadas. As minhas luas de céus vários, alguns cegos-outros de aventura, janelas de hotéis, de hospitais, de varandas, de horizonte cortado rente ao olhar, manhãs de aeroportos, madrugadas de praia, de prazer-ou-trabalho e insossego.








"Alta ia a noite... e mais alta ficou porque se resolveu ir seguindo o eclipse total da Lua, desde a 1h até às 3h da madrugada. E que belo espectáculo, num lugar tranquilo, de largos horizontes e com pouca luz artificial. Vinham-nos à memória as figuras ingénuas dos livros de liceu, de como percebemos a posição dos astros e "o cone de sombra" que, afinal, era projectado por nós todos, com mares e terras, defeitos e virtudes: a Terra."


Se e quando, as luas tinham o encanto dos lugares conhecidos e pacíficos.




Hoje também lembrei as noites, não só essas mas outras.
Há muitas luas, como pedras-como flores-como estátuas-como pinturas-como quadros-como palavras caixas.

terça-feira, março 27, 2018

Hoje é dia de Borboleta

Avistei uma borboleta pela primeira vez este ano.
Uma menina, uma feminina, cujo nome me vôa. Desenhei em papel e recortei duas, em Março.
O que há de específico neste dia-borboleta?
Unicamente ter visto uma, branca e efémera como a tarde,
entre as paredes severas e cegas dos prédios.
Uma borboleta branca descobriu um vaso de plantas.
E deu-me um riso.










(entre tantas fotografias há-de haver borboletas que eu sei... não as encontrei: falo então de coisas brancas ou breves ou delicadas)
***
Encontrei agora algumas...



sexta-feira, março 02, 2018

Os sons dos Sinos

Imagino que tenha isto escrito algures, por aqui ou ali.
Tantos papéis, tantos cadernos, tantas notas. Tantas vezes sem datas, perdidos entre pedras, ou caixas ou recantos ou estantes.
É uma citação que só conheci completa muito mais tarde. Quando li "Por quem os sinos dobram", livro de 1940, de Ernest Hemingway, o futuro era longe.



(não conhecia José Saramago e as suas palavras)

Os relógios marcavam as horas, as mesmas

Aflorava as ruínas como antigas,
os homens como velhos,
no turbilhão dos dias,

na solidão dos pensamentos,





"No man is an island, entire or itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were: anyman death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee."

John Donne (1572-1631)

Chove muito. As estradas e as ruas cheias de gente que trabalha, vai ou vem. Esse tempo que já não é o meu, quanta chuva, quanto calor, quantas horas.
Os tempos alterados.
Por quem os sinos dobram.

 

domingo, fevereiro 25, 2018

Fruto no Palavra Puxa Palavra

O desafio de dia 22 era ilustrar "Fotografando as palavras de outros".
O texto de Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio e Alvim, Novembro 2003, tão belo como ele era,
mestre tão pouco lembrado.


"Fruto: Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo."

Com árvores e poesia desta, era difícil escolher...









Como "uma abelha na chuva" por vezes me sinto, colhendo os pingos da beleza que se espalha, levando o pólen, fabricando o favo. Fazendo mel das palavras e dos pensamentos, o que é tão raro.
Me sinto, ou sento, como nestas tardes de Sul.
Incomparáveis.