terça-feira, fevereiro 27, 2007

E por fim, as papoilas...

O meu gatito letrado e engraçado... mais flores evanescentes, por aí abaixo.
















As papoilas ...que não tinham ficado aqui. faltavam-me. eram as bandeiras de Abril que eu encontrei no monte.
Sempre que as veja, olho-as, nos olhos pretos.
Como também noutros sítios onde fotografias enterradas em albuns. Maios Algarve longe, bermas de estradas sonolentas, Alentejo.

Selvagem liberdade, bailarinas frágeis de Degas, não dançam senão ao vento, trepando muros e assinalando cantos de sol. Nem se impõem, aparecem em pequenos molhos selvagens.
Esqueço a droga e só vejo alegria. Silenciosa de tão ténue e efémera, mas vibrante!

E como não tem nada a ver com isto - ou vagamento, nos meandros do meu espírito, pela suavidade? - gatos derivados de posts por onde passei estes dias.
Para donos deles, a quem deixo uma beldade e brincadeiras na biblioteca, com os seus livros preferidos: Sua Excelência "Frederick The Literate" pintado, com carinho, por Charles Wysocki.


Reprodução de um postal que me enviaram há 3 anos, pela minha paixão conhecida (outras, não...(re)conhecidas).

As lombadas dos livros, se se conseguem ver, são duma imaginação perfeita de gato gato!

Se não se virem bem, tenho todo o prazer em as passar aqui, à mãozinha, talvez!





segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Do rio com raízes II










Canada do Inferno pela manhã, plataforma junto ao rio, onde cabíamos dois ou três. Nuvens alteradas, chumbo e brilhos ao longe.

Penascosa à tarde, voltas e ilhas verdes no rio Côa, a Quinta da Ervamoira em brinquedo, do outro lado. Afogueados e chegados a uma pequena praia de ervas, paredes de rocha e um soluçar de água acompanhando o silêncio e o canto dos pássaros.

Nomes de encantamento, profundo, dos sítios e dos espíritos que por lá passaram.

Pelas raízes do rio I







Por "Desafio" agora. E ecos duma controvérsia sobre não-barragem, há anos, para salvar traços antigos e enigmáticos que a água iria destruir.
Rio Côa, foz com o rio Douro. O rio que acordou tarde, na vigília do mundo, e se precipitou pelos montes de Espanha. Rasgando vales profundos, penedos duros, ardendo calor e suor nas margens de vinha generosa.

(O Tejo foi o segundo a acordar. Galgou caminhos de montanha e paisagens secas mas teve tempo para escolher, mais tarde, o percurso pela planície que foi encharcando, num vagar irónico de chegar ao estuário largo e azul.

O Guadiana, confiante, acordou primeiro, cedo. Veio preguiçoso, quase calmo, ao encontro dos mares quentes, escolhendo pudicamente a discreta fronteira que somos. Aprendi assim, estes três nossos rios e os seus afluentes.).

De muitas águas tenho recordações que me deixaram heranças e paisagens inesquecíveis.
Mas, a este Douro donde venho descalça e jornaleira, pela mão da minha bisavó fugida da fome, resta-me o coração acorrentado.

Vou-o conhecendo aos poucos, da foz para nascente. É um rio que se esconde em contornos, visto do ar parece interromper-se nas traseiras brumosas das encostas. Rio Douro masculino e verde, a caminho de todos os poentes atlânticos.

Tanto que existe à volta deste rio Douro! Só no seu pequeno afluente Côa, reune vestígios com cerca de 30 mil anos de tempos idos. Desdobra-se a história, desde o Paleolítico das gravuras rupestres (representações de auroques, cabras, cavalos...), Idades do Ferro e do Bronze, povoações castrejas, romanas, medievais, até agricultores, moleiros e pastores do século passado.

Nós, mutantes da natureza, demos-lhe o título de Património Cultural da Humanidade, desde 1998. É considerado um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre do mundo, em 17 km de curso do rio Côa até à sua confluência com o Douro. Onde a não-barragem ficou abandonada.

Abril. Caminhos de terra em jipes da excursão organizada pelo Parque Arqueológico do Vale do Côa, em grupos de 8 pessoas, mais estrangeiros do que nacionais. Depois, a ousadia de descer a pé, em curvas ou a pique, até onde as águas tumultuosas nos deixaram ir nessa Primavera.
Amendoeiras, oliveiras, giestas, tojo, sumagre, papoilas, rosmaninho, ervas e arbustos floridos balançando na paisagem.












sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mons Sanctum II













Desta aldeia, ficam recordações de partilhar e conversar o almoço com outras pessoas, desconhecidos que brindaram à hospitalidade. Falo sempre com as pessoas dos lugares que gosto. Aprendo imenso, oferecem-me ovos ou laranjas que não aceito, vou de viagem.

Mas comprei a marafona, o adufe, o queijo, os postais, biscoitos para o caminho. Formas de interagir com a terra. E tento reconhecer o que é genuinamente nosso e ouvir "os de lá", troca da minha cultura de livro pelas suas tradições e saberes.

Perdi-me até a fotografar a "casa dos porcos" no caminho do Castelo, que tão bonita era e me fez pensar na coexistência pacífica.
E a raiz de nós por onde andará?
Como todos estes rostos de pedra que nos espreitam, imutáveis, há tantos séculos, sempre
iguais, sempre diversos.

Mons Sanctum I






Uma imagem que faz tocar o sino das ideias, em cadeia.
Será que a pedra-peso que a Teresa S. viu há 30 anos, é esta mesma? Monsanto, do tempo pré-histórico, sendo sucessivamente ocupada pelos Romanos no Sec. II AC, Visigodos, Árabes e por fim, conquistada por D. Afonso Henriques. Afinal era o que o nosso primeiro Rei gostava e fazia melhor, conquistar, além de "pelejar" com a mãe.

A tal aldeia que o Estado Novo elegeu como a "mais portuguesa" - típica, eles gostavam muito dos rústicos, um deles ficou na tal cadeira do poder mais de 40 anos - é linda.

Se é a mais portuguesa, não sei, gostei de outras. Que tem uma torre imponente, a Torre do Relógio ou de Lucano, sec. XIV, o Castelo quase inacessível, de Gualdim Pais (mestre dos Templários), a Igreja Matriz com altares e imagens valiosas, o Museu de Gastronomia no Solar d0 Marquês da Graciosa, sec. XVII, uma maravilhosa e isolada capela de S. Miguel, destelhada e com um altar deserto, com arcas tumulares, sec. XII.

E pedras vivas, casas casadas com a pedra. Montes de pedras que respiram.

Onde viveu e exerceu o médico e escritor Fernando Namora (inspirou-se nessa vivência para escrever "Retalhos da Vida de um Médico"), casa isolada desta série de fotos.

Mons Sanctum, um horizonte desafogado, de pasmar, chega a ver-se a Serra da Estrela e a lendária - para mim - Serra da Malcata. Um estendal luminoso por esse cenário verde e azul tão vasto.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

A sustentável leveza





O problema foi, como é quase sempre, a multiplicidade plástica dos gestos e festas, no mundinho momo global. Compramos luzes e máscaras na mesma loja dos trezentos, unimo-nos em natal/carnaval. Pelo caminho, um coração vermelho e macio que diz I love you made in China. Invadirão o mundo com os seus coraçõezinhos, dragões dourados, olhinhos subtis, substituindo castelos por pagodes? Detergente e sombra para os olhos, camisolas e relógios, tudo ao preço da chuva que teima em cair, graciosamente. Coisas tão jeitosas, mesmo!

Adeus cruzadas, bem-vindo o negócio.
(nanja eu, que adoro orientes e pouco trabalho)

Sobre o "Peso" no PPP, sobraram boas ideias. A minha foi esta: minúsculas formigas carregando uma semente (?) para o celeiro. Quantas teriam trabalhado nesse dia e que dia era esse: dia de supermercado? De guerra? Quantas assinaram o ponto? E quantas com tolerância, na errância?
Deveria ficar, ver como e onde. Formigas rabigas. Das ervas e terra solta, escolheram o"caminho inviável e menos percorrido", da pedra.
Um acontecimento em milhões e milhões e milhões...
Acontecimento nesta Terra azul. Um esforço enorme para duas formigas vivas, quando é tão simples/fácil morrer/matar por aí.

Vá-se lá saber porque me lembrei do Império do Meio!

DEI (Depois de Escrito Isto): dedicado à minha amiga Tri-li - mas não à Ni-ni - a quem achei graça e algum saudosismo gentil.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Árvores Com História (1)




Dos meus primeiros contactos neste mundo virtual, o "Dias com Árvores", e a segunda edição do livro "À Sombra de Árvores com História". Que encomendei e recebi pelo correio, alegre, como se dum álbum de gente conhecida se tratasse.

Camélias foram as ligações fortes, ligações românticas, o meu encanto precoce pela flor/cor mas sempre vivi à "sombra dessas outras árvores".
As que foram cortadas ficam na memória desse tempo.

O medo da "árvore da forca" no Jardim de Cordoaria, onde brincava ao domingo à tarde.
A minha avó linda guardava-me. Entretimento de criança era levar pão para os peixinhos do lago e para o bando de patos, em alvoroço, que já nos conheciam. E correr entre as árvores, às escondidas.
Este livro tão poético, de fotos e histórias das árvores do Porto, não pretende ser um tratado de botânica. Antes me parece uma reunião da paixão por árvores e, assim, uma forma de as conhecermos, protegermos e amarmos melhor.

Qualquer um de nós que aqui tenha passado a infância e juventude, acompanhou as estações do ano vendo esses seres com ramos e asas. Recordo bem o cheiro de Primavera no jardim do Carregal. E o Outono, quando começava o liceu, todo o caminho da Batalha, S. Lázaro, Rua do Heroísmo, onde as folhas marulhavam ao sol da manhã, com um rumor de pequenas vagas de papel.

Para que daqui a algum tempo esta não seja uma obra de ficção, é importante ler este livro e, passo a passo, reconhecer as nossas amigas da cidade.

E talvez que mais alguém o faça, noutros sítios, noutras cidades, obrigando os responsáveis a repensar os abates, as podas selvagens, o desastre que é o desaparecimento dessas nossas raízes à terra: as árvores que conhecem a história da nossa vida.

domingo, fevereiro 11, 2007

Du(m)as lembranças






Com a "Dama das Camélias" que a R. recordou , mais Verdi e seu drama em ópera "La Traviata", veio a L. falar das sardinheiras que acompanharam o seu tempo de menina.

Livros e amores contrariados, infâncias, muros e varandas.

Surgiram-me estas duas imagens ao pensá-las.

Apontamento de momentos em que falamos uns com os outros.
(imagem da net)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Quando frio e húmido






Chove uma chuva entretecida, monótona. Deu-me vontade de camélias.

Há dias fui propositadamente vê-las, tocá-las. As flores do Inverno, flores do Porto.
Fui espreitar o romance duma cidade antiga, onde os jardins das famílias ricas se reconheciam pela idade das japoneiras.

No tempo de brincar fechada comigo, havia uma janela. Um telhado em frente, um muro com heras bailarinas e atrás uma cortina de verde escuro e flores.

Pensei como era diferente e bom ter aquelas traseiras de jardim como ancoradouro dos olhos. Olhos e lágrimas de criança.

Renascem assim as minhas flores primeiras, aquelas que via e nunca toquei. Tenho-as de memória e reconheci as cores. Através da chuva e do esquecimento, continuam a sorrir.

Quando saí, fui procurar a família e foi como encontrar velhas conhecidas.
Colegas. As camélias.

sábado, fevereiro 03, 2007

Tempo e Mudança (em Lisboa)





Lisboa, a cidade clara que me tem presa em pensamentos de liberdade, morte e doença.

Não, não estive no terramoto de 1755. Nem no 25 de Abril de 1974. Só depois, em era de cravos e promessas, consolidadas em esperanças. Mais tarde; todos amigos éramos.

Lisboa, onde vimos os tanques e correntes de alegria, nas ruas e avenidas. E como nos sobressaltou a capital, a revolução e sua sequência. Só percebemos ser peões (nós, os do Norte) quando o xadrez se posicionou e as jogadas de fogo e ignorância se sucederam.
(um senhor doutor, velhinho e amável, muito culto e anti-fascista, nesse tempo com olhos e posições de equilíbrio, perigosas).

A cidade tornou-se rapace, no seu centralismo cego. A melancolia estendia-se nas vielas e o azul desbotava; nenhum exemplo, aliás, nenhum bom exemplo, para o resto do País.

A propósito do jogo do Fotodicionário e o retorno lento, nestes últimos anos, agora por laços de oportunidade e família, à capital.
Subir a Rua do Alecrim, passeio de outras lembranças. A placa de práticas oftalmológicas doutros tempos: "Clínica de Enfermedades de los Ojos y Quirúrgicas - fundada por A. Mascaró en 1870".
Adiante, as portas velhas mas verdes que Abril entreabriu.
As palavras de Eça de Queirós e a sua musa cáustica da Verdade. E contudo "sob o manto diáfano da fantasia" andamos.

Finalmente, a reconstrução em condomínios espelhados, onde pombas voam, entontecidas, sem telhas côr de telha para pousar.

Este o pensamento encadeado que lembrei com a sugestão de "Tempo".